Deus é bem bom...

De Henriqueta Lisboa.

Deus é bem bom...


Havia um pescador, casado, pobre como Jó, mais que vivia com sua mulher, sempre alegre e satisfeito, dizendo:
-Deus é bem bom mulher!
-bem bom marido! – respondia ela.
Todas as vezes que ele ia vender peixe no palácio do rei, este, que não gostava de ouvir falar no nome de Deus, ficava aborrecido com aquela cantilena dos pobres pescadores. Um dia disse o rei consigo:
-deixem estar, que faço vocês acabarem com esse Deus é bem bom...


De uma feita quando o pescador foi vender o seu peixe, o rei pegou numa jóia muito rica e disse-lhe:
-Toma esta jóia e me guarda ela até o dia em que eu te pedir.
Assim que o pobre saiu o rei mandou um criado acompanhá-lo de longe para ver onde ele guardava a jóia, roubando-a depois e atirando-a ao mar. Isso mesmo o criado fez. Quando o pescador chegou na choupana, foi dizendo á mulher:
-Deus é bem bom mulher!
-Bem bom marido!
Em seguida, contou o que lhe havia acontecido em palácio rematando:
-Onde é que a gente vai guardar essa jóia aqui? Pode chegar um ladrão e roubar ela. Depois nem nós vendidos temos dinheiro para comprar outra.
Afinal, saíram pela praia e, chegando a um pé de coqueiro, cavaram um buraco bem fundo, no qual deitaram a jóia, metida dentro de um saquinho. Em seguida, taparam bem o buraco. Quando acabaram o trabalho, disse o homem:
-Deus é bem bom mulher!
-Bem bom marido!
E, satisfeitíssimos, foram embora. O criado do rei que estava escondido, espiando onde eles iam esconder a jóia, quando o pescador e a mulher estavam bem longe, cavou de novo o buraco, tirou a jóia, sacudiu-a ao mar e correu para o palácio.
Ora, meu senhor, lá continuaram os dois pobres muito contentes da vida, sempre com o “Deus é bem bom” na boca. Dias depois, o rei mandou-os chamar e ordenou-lhes que fossem buscar a jóia que lhes dera para guardar.
-Deus é bem bom mulher!
-Bem bom marido!
Diziam eles, descendo as escadas do palácio. Encaminharam-se para o lugar onde haviam enterrado a jóia. Lá chegando cavaram, cavaram, sem nada encontrar. Puseram as mãos na cabeça exclamando:
-Estamos perdidos! O rei nos manda passar o cutelo.
Saíram por ali a fora chorando, contudo, deixarem de afirmar:
-Deus é bem bom mulher!
-Bem bom marido!
Chegando em casa, não tiveram mais coragem para nada. Passado algum tempo, o homem disse:
-Mulher, eu sei que nos espera a morte. Vamos nos despedir dos nossos peixes.
Chegando no mar, deram um lanço e pegaram uma pescada grande e gorda que fazia gosto. Então voltaram para casa, dizendo um para o outro, na forma do costume, q Deus é bem bom. Em casa o pescador propôs:
-Mulher vamos tratar essa pescada para nós comer. Quando acabar vamos nos apresentar ao rei. Ao menos havemos de morrer com barriga cheia.
A mulher escamou o peixe, e, quando lhe passou a faca na barriga para abri-la, sentiu uma coisa ranger, perguntando de si para si o q seria aquilo. Abrindo a barriga da pescada, encontrou a jóia do rei dentro dela. Gritou a pobre, doida de alegria:
-Deus é bem bom marido! Olha aqui a jóia do rei meu senhor! Deus é bem bom marido!...
-Bem bom mulher!
Cozinharam o peixe, comeram, descansaram bem, depois coseram a jóia num cinto bem cosida. O homem amarrou o cinto no corpo e lá se foram os dois para o palácio, dando pinotes de contentamento. Assim que o rei os foi avistando foi logo perguntando:
-Cadê minha jóia?
O homem desabotoou o cinto, descoseu-o, tirou a jóia, apresentou-a ao rei, que ficou friinho de espanto, vendo semelhante coisa. Então intimou-os, sob pena de morte, a contarem como tinham encontrado a jóia, referindo os dois que se havia passado.
O rei, convencido de que Deus é mesmo bom, mandou-os embora, depois de lhes ter dado tanto dinheiro, que chegou para eles passarem descansados o resto da vida, sempre contentes e dizendo sempre:
-Deus é bem mulher!
-Bem bom marido!

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