A Fonte das tres Comadres

Estou pensando em toda semana postar aqueles contos antigos que já nao é mais contado hoje em dia... só aquelas vovozinhas que contam para nós, aquele conto gostoso que nunca cansamos de reler e ouvir... é são esses contos que eu vou postar aqui, são eles que fizeram minha infancia e cada um desses contos que eu postarei ensinam uma coisa bonita uma filosofia verdadeira... bem lá vai espero que gostem:

A FONTE DAS TRES COMADRES
De Henriqueta Lisboa.

Havia um rei que cegou. Depois de ter empregado todos os recursos da medicina, deixou de usar de remédios, e já estava desenganado de que nunca mais chegaria a recobrar a vista. Mas uma vez foi uma velhinha a palácio pedir uma esmola, e, sabendo que o rei estava cego, pediu para falar com ele, para lhe ensinar um remédio. O rei mandou-a entrar, e então ela disse:

-Saberá vossa real majestade, que lhe possa fazer voltar a vista, e vem a se banhar os olhos com a água tirada da “fonte das três comadres”. Mas é muito difícil ir-se a essa fonte, que fica no reino mais longe que há daqui. Quem for buscar a água, deve-se entender com uma velha que existe perto da fonte, e ela é quem deve indicar se o dragão está acordado ou dormindo. O dragão é um monstro que guarda a fonte, que fica atrás de umas montanhas. O rei deu uma quantia á velha e a despediu.
Mandou preparar uma esquadra pronta de tudo e enviou o seu filho mais velho para ir buscar a água, dando-lhe um ano para estar de volta, não devendo ele saltar em parte alguma para não se distrair.
O moço partiu. Depois de andar muito foi aportar a um reino muito rico, saltou para terra e namorou-se lá das festas e das moças, despendeu tudo quanto levava, contraiu dividas, e, passado um ano, não voltou para casa de seu pai. O rei ficou muito maçado e mandou preparar nova esquadra e enviou seu filho do meio para buscar a água das fontes das três comadres. O moço partiu, e, depois de muito andar, foi ter justamente o reino em que estava já arrasado seu irmão mais velho. Meteu-se lá também no pagode e nas festas, pôs fora tudo que levava, e, no fim de um ano, também não voltou. O rei ficou muito desgostoso. Então o seu filho mais moço, que ainda era menino, se lhe apresentou e disse:
-Agora eu quero ir, meu pai, lhe garanto que hei de trazer a água!
O rei mancou com ele dizendo:
-Se teus irmãos que eram homens, nada conseguiram, o que farás tu?
Mas o principezinho insistiu, e a rainha aconselhou o rei de mandá-lo dizendo:
-Muitas vezes donde não se espera daí é que vem.
O rei anuiu e mandou preparar uma esquadra, e enviou o príncipe pequeno. Depois de muito navegar, o mocinho foi dar á terra onde estavam presos por dívidas os seus irmãos, pagou as dividas deles, que foram soltos. Quiseram dissuadi-lo de continuar a viagem e o convidaram para ali ficar com eles, mais o menino não quis e continuou sua derrota. Depois de muito ainda navegar, o príncipe chegou ao lugar indicado pela velha. Desembarcou sozinho levando uma garrafa, e foi ter á casa da velha, vizinha da fonte, a qual, quando o viu, ficou muito admirada, dizendo:
-Ó meu netinho, o que veio cá fazer?!Isto é um perigo você talvez não escape. O monstro que guarda a fonte, que fica ali entre aquelas montanhas, é uma princesa encantada que tudo devora. Você procure uma ocasião em que ela esteja dormindo para poder chegar, e repare bem que quando a fera está com os olhos abertos é que ela está dormindo, e quando está com eles fechados é que está acordada. O príncipe tomou suas precauções e partiu. Chegando lá na fonte avistou a fera com os olhos abertos. Estava dormindo. O mocinho se aproximou e começou a encher sua garrafa, quando já ia retirando a fera acordou e lançou-se sobre ele dizendo:
-Quem te mandou vir a meus reinos mortal seu atrevido?
O moço ia-se defendendo com sua espada até que feriu a fera, e com o sangue ela se desencantou; e então disse:
-Eu devo me casar com aquele que me desencantou; dou te um ano para vires me buscar para casar, senão eu te irei ver.
A fera era uma princesa a coisa mais linda que dar-se podia. Em sinal para ser o príncipe conhecido quando viesse, a princesa lhe deu uma de suas camisas.
O príncipe partiu de volta para a terra de seus pais, quando chegou ao reino onde estavam seus irmãos, os levou para bordo para voltarem para seus pais. Os outros príncipes seguiram com ele. O menino tinha guardado sua garrafa no seu baú e os irmãos queriam roubá-la para lhe fazer mal e se apresentarem ao pai como se tinha sido eles que tinham alcançado a água das fontes das três comadres. Para isso propuseram ao pequeno dar-se um banquete a bordo da esquadra a toda oficialidade, em comemoração a ter ele conseguido arranjar o remédio para o rei. O pequeno consentiu, e no banquete os seus irmãos, de propósito, propuseram muitas saúdes, com o fim de o embriagarem e poderem roubar-lhe a garrafa do baú. O pequeno de fato bebeu demais e ficou ébrio; os manos então tiraram a chave do baú, que ele trazia consigo, e abriram-no e tiraram a garrafa d’água, e botaram outra no lugar, cheia de água do mar.
Quando a esquadra se apresentou na terra do rei, todos ficaram muitos satisfeitos, sendo o príncipe menino recebido com muitas festas, mas quando foi botar a água nos olhos do rei, este desesperou com o ardor, e então os seus outros dois filhos se apresentaram, dizendo que o pequeno era um impostor, e que tinham trazido a verdadeira água, deitaram ela nos olhos de pai, o qual sentiu logo o mundo se clarear e ficou vendo, como dantes.
Houve grandes festas no palácio e o príncipe mais moço foi mandado matar. Mais os matadores tiveram pena de matar e o deixaram numas brenhas cortando-lhe apenas um dedo, que levaram ao rei. O menino foi dar á casa de um roceiro, que o tomou como seu escravo e muito o maltratava. Passado um ano chegou o tempo em que ele tinha de voltar para se ir casar, segundo tinha prometido á princesa da fonte das três comadres e, não aparecendo ela mandou aparelhar uma esquadra muito forte e partiu para o reino do moço príncipe. Chegando lá mandou á terra um parlamentar avisar ao rei para lhe mandar o príncipe, que há um ano tinha ido á seus reinos buscar um remédio, e que ele tinha prometido casamento, isto sobre pena de mandar fazer fogo sobre a cidade. O rei ficou muito agoniado e o mais velho de seus filhos se apresentou a bordo, dizendo que era ele. Chegando a bordo a princesa lhe disse:
-Homem atrevido que é do sinal de nosso reconhecimento?
Ele que nada tinha, nada respondeu e voltou para terra muito enfiado.Mova intimação para terra e então foi o segundo filho do rei , mais o mesmo lhe aconteceu. A princesa mandou acender os morrões e mandou nova intimação á terra. O rei ficou aflitíssimo, supondo que tudo se ia acabar, porque seu ultimo filho tinha sido morto por sua ordem. Aí os dois encarregados de o matar declararam que o tinham deixado com vida, cortando-lhe apenas um dedo. Então mais que depressa, se mandaram comissário por toda a parte procurando o príncipe, dando os sinais dele, e prometendo um premio a quem o trouxesse . o roceiro que o tinha em casa ficou mais morto do que vivo, quando soube que ele era filho do rei; botou o logo nas costas e o levou para o palácio chorando.
O príncipe foi logo lavado e preparado com sua roupa, que a rainha tinha guardado, e que já lhe estava um pouco apertada e curta. O prazo que a princesa tinha concedido já estava a expirar, e já se iam acendendo os morrões para bombardear a cidade, quando o príncipe fez sinal de que já ia. Chegando á esquadra, foi logo reconhecido pela princesa, que lhe exigiu o sinal do reconhecimento e ele lho apresentou. Então seguiu com ela com quem se casou e foi governar um dos mais ricos reinos do mundo. Descoberta assim a pabulagem dos dois filhos mais velhos do rei, foram eles amarrados ás caudas de cavalos brabos e morreram despedaçados.

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