A mãee d'água



Era um homem muito pobre, que tinha sua plantação de favas na beira do rio; quando, porém,elas estavam boas de colher, não apanhava uma só, porque, da noite para o dia, desapareciam.
Afinal, cansado de trabalhar para os outros comerem, tomou a resolução de ir espiar quem era
que lhe furtava as favas.
Um dia, estava de espreita, quando viu uma moça, bonita como os amores, no meio do faval,
abaixo e acima, colhendo as favas todas. Foi, bem sutil, bem devagarinho e agarrou-a, dizendo:
– Ah! é você que vem aqui apanhar as minhas favas? Você agora vai é para a minha casa, para se casar comigo.
Gritava a moça, forcejando por se libertar das unhas do homem:
– Me solte! Me solte, que eu não apanho mais as suas favas, não.
Porém o homem, sem querer largá-la. Finalmente, disse a moça:
– Está bem. Eu me caso com você, mas nunca arrenegue de gente de debaixo d’água.
O homem disse que sim. Levou-a e casou-se com ela. Tudo quanto possuía aumentou como
milagre, num instante. Fez logo um sobrado muito bom, comprou escravos, teve muitas criações,
muitas roças, muito dinheiro, enfim.
Depois de passado bastante tempo, a mulher foi ficando desmazelada, que uma coisa era ver e
a outra contar. Parecia de propósito. Não dava comida aos filhos, que viviam rotos e sujos. A casa
estava sempre desarrumada, cheia de cisco. Os escravos, sem ter quem os mandasse, não cuidavam
do serviço e só andavam brigando uns com os outros. Ela, descalça, com o vestido esfarrapado, os
cabelos alvoroçados, levava o dia inteiro dormindo.
Enquanto o pobre do homem estava na rua, nos seus negócios, estava sossegado; mas, assim que
punha o pé dentro de casa, era uma azucrinação em cima dele, que só lhe faltava endoidecer. Choravam
os meninos, com fome:
– Papai, eu quero comer... Papai, eu quero comer...
Os escravos:
– Meu senhor, fulano me fez isto. Beltrano me fez aquilo.
Um inferno! Vivia zonzo de tal forma, que pouco parava em casa. Um dia, muito aporrinhado da vida,
disse baixinho:
– Arrenego de gente de debaixo d’água...
Aí a moça, que só vivia esperando por aquilo mesmo para ir-se embora, porque ela era a "mãe-d’água"
e andava doida por voltar para o seu rio, levantou-se mais que depressa e foi saindo pela porta a fora,
cantando:

– Zão, zão, zão, zão,
Calunga,
Olha o munguelendô,
Calunga,
Minha gente toda,
Calunga,
Vamo-nos embora.
Calunga,
Para a minha casa,
Calunga,
De debaixo d’água,
Calunga,
Eu bem te dizia,
Calunga,
Que não arrenegasses,
Calunga,
De gente de debaixo d’água,
Calunga.

O homem, espantado, gritou:
– Não vá lá não, minha mulher!
Mas, qual! Em seguida à moça, foram saindo os filhos, os escravos e criações: bois, cavalos, carneiros,
porcos, patos, galinhas, perus, tudo, tudo. E o pobre do homem, com as mãos na cabeça, gritando :
– Não vá lá não, minha mulher!
Ela, continuando o seu caminho, nem ao menos olhava para trás, cantando sempre:

– Zão, zão, zão, zão,
Calunga ", etc.

Depois da gente e dos bichos, foram saindo pela porta a fora a mobília, a louça, as roupas, os baús e
tudo o que estava em cima deles, comprado com o dinheiro dela. O homem correu atrás, vestido já na
sua roupa do tempo em que era pobre, gritando:
– Não vá lá não, minha mulher!
Foi o mesmo que nada. Por fim acompanharam-na a casa, telheiros, galinheiros, cercados, currais,
plantações, árvores e o mais. Chegando à beira do rio, a moça e todo o seu acompanhamento foram
caindo na água e desaparecendo.
O homem foi viver pobremente, como dantes, do seu faval. Também nunca mais a "mãe-d’água" buliu
na sua roça.













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